Adriano Miranda Lima
Recordar o professor Antero de Barros é, sobretudo, evocar a suas qualidades pedagógicas, os seus métodos de ensino, a vontade de aprender que instilava no aluno e o nível de exigência e rigor que punha em todo o processo de aprendizagem.
Já lá vão 44 anos que deixei de ser aluno do doutor Antero de Barros no antigo Liceu Gil Eanes, mas o tempo nunca deliu a recordação que dele sempre guardei com saudade e apreço.
De todos os meus mestres no ensino secundário, Antero de Barros foi aquele que mais impressivamente marcou o meu espírito juvenil, pelas suas qualidades pedagógicas, pela sua figura austera e imponente e pelo espírito de disciplina e de aplicação que inculcava em todos os seus alunos.
Se alguns se permitiam a alguma cabulice, balda ou brincadeira ocasionais em outras aulas, com Antero de Barros nem por hipótese tais derivas passariam pela cabeça. Ele não precisava de ser prolixo no discurso para se impor naturalmente perante qualquer classe de alunos. Bastava o exemplo do seu porte, digno e sóbrio, para induzir os seus alunos à devida compostura, seriedade e concentração nas aulas.
Não era homem que exteriorizasse afabilidade ou cumplicidade fáceis nos seus gestos e atitudes, mas ostentava aos nossos olhos a auréola de uma figura paternal e confiável, impondo-nos de modo natural a intelecção da relação de compromisso entre a escola e o nosso futuro.
Tinha um especial dom para farejar em alguns alunos momentâneos desvios de conduta exteriores à escola, próprios da idade juvenil, que punham em causa o seu normal rendimento escolar. Nestes casos, o aluno caía logo sob a sua alçada, "tomando-o de ponta" durante tempo indeterminado, mediante constantes chamadas ao mapa ou ao quadro para responder sobre a matéria do dia.
O aluno não tardava a "pedir toalha" e a regressar à sua normalidade anterior. Na minha última visita a Cabo Verde vi um antigo companheiro de turma com quem se passou um desses episódios e o curioso é que logo me veio à mente a recordação do nosso mestre, tal a indelével influência que ele exerceu na nossa formação.
Os modernos pedagogos certamente apodariam de autoritarismo aquele procedimento interventivo e tempestivo de Antero de Barros, mas da moderna pedagogia estamos todos fartos e conhecemos bem o seu ror de insucessos, com culpas directas e em larga medida no rendimento escolar e no colapso de muitos alunos.
Ainda recentemente soube da posição tomada em bloco pelos professores espanhóis, denunciando os quatro mitos que estão subjacentes ao falhanço do sistema escolar, que em quase toda a Europa tem sido desde há décadas objecto sucessivas e precipitadas reformas.
Um dos mitos é precisamente a ideia de que o professor deve ser antes de mais um "amigalhaço" e companheiro mais velho do aluno, desvirtuando-se assim o sentido de autoridade e de compulsividade que durante longo tempo marcou a acção docente.
E as consequências disso são hoje bem visíveis e de uma gravidade tal que a profissão de professor passou a ser encarada como de risco, pelos frequentes casos de agressão física e moral de que ele é vítima nos estabelecimentos de ensino secundário.
Perante tão inequívoca falência do actual sistema educativo, lembro-me logo do meu saudoso mestre Antero de Barros e identifico-o como um modelo que deve ser restaurado se quisermos salvar o ensino. Ou seja, urge recuperar os princípios e os valores que pautavam a relação entre o professor e o aluno.
Urge derrogar a visão fantasiosa que se tem partilhado sobre realidade social que subjaz à concepção política na área da educação, a qual tem concorrido para que o aluno seja visto como um ser intocável, irresponsável, repleto de direitos mas isento de deveres e obrigações.
Mas recordar o professor Antero de Barros é, sobretudo, evocar a suas qualidades pedagógicas, os seus métodos de ensino, a vontade de aprender que instilava no aluno e o nível de exigência e rigor que punha em todo o processo de aprendizagem.
Eu apenas trago aqui à colação o ensino da geografia, por ter sido a única disciplina em que Antero de Barros foi meu mestre. À primeira vista pode a geografia parecer uma disciplina de apreensão conseguida desde que memorizado o conteúdo programático, mas com Antero de Barros isso não era o bastante e estava longe de o satisfazer.
A propósito, aproveito, num breve parênteses, para voltar a outro dos mitos que os professores espanhóis consideram responsável pelo fracasso do actual sistema de ensino. É o mito da aquisição de competências em detrimento do conhecimento, ou, por outras palavras, o mito da educação sem os recursos da memorização para evitar cansar o aluno.
Os métodos de ensino que o professor Antero de Barros utilizava são o exemplo mais fiel de como desmistificar alguns conceitos actuais plenos de equívocos que colocam o processo de aprendizagem num impasse penoso tanto para o aluno como para o professor.
Porque tudo se torna simples e alcançável quando o professor é o pilar principal do sistema, dignificado na sua função, competente, dedicado e encarando o seu ofício como um sacerdócio.
Antero de Barros não descurava naturalmente a memorização dos conhecimentos basilares e dos princípios enformadores da aprendizagem dos conteúdos programáticos. Mas, acima de tudo, preocupava-se com o habilitar o aluno a olhar para o particular sem deixar de ver a sua correlação com o geral, e, inversamente, fazia com que o todo fosse abordado sem deixar de compreender a sua incidência sobre cada uma das partes.
No caso particular da geografia, rara era a aula em que os mecanismos de raciocínio não eram estimulados e elevados a um alto expoente, obrigando o aluno a compreender e a relacionar factores tão diferentes como o clima, a economia, a demografia e a organização social e política.
Mesmo ao nível das exigências normais do ensino secundário, todo o aluno que passou pelas mãos de Antero de Barros deve ter atingido um patamar de amadurecimento intelectual em que sentiu a importância da contextualização do que aprendia e a transversalidade dos conteúdos dentro da mesma disciplina.
No entanto, pouco conhecia eu da vida pessoal e familiar deste meu saudoso mestre, para além de ser um exímio desportista e filho do lendário mergulhador João de Barros. Recordo-me da filha mais velha de Antero de Barros, rapariga da minha idade e minha contemporânea no liceu.
A última vez que vi o meu mestre foi à distância e caminhava ele na rua do Coliseu, em Lisboa, em direcção à Sociedade de Geografia. Mas isso foi, salvo erro, em fins da década de 1960. Não tive então possibilidade de lhe falar. Por informações que amiúde vou colhendo, julgo saber que o doutor Antero de Barros vive na cidade da Praia.
É natural que meu mestre já não se recorde deste seu aluno, tanta é a água que já correu debaixo da ponte das nossas vidas. Mas deixo-lhe aqui efusivamente o testemunho público do meu reconhecimento e da minha gratidão por tudo o que representou para mim e todos os alunos da minha geração. Bem-haja, doutor!
É um homem Grande, literalmente, este professor do liceu Gil Eanes, instituição a que "a independência de Cabo Verde deve uma grande parte". Antero Barros, o único negro de três rapazes entre 58 raparigas do seu curso de Filologia Românica, presenciou o primeiro discurso de Amílcar Cabral na 17º Assembleia das Nações Unidas, em 1962, ensinou várias gerações de onde saíram ilustres figuras, e, aos 85 anos, sem perder o seu taco de golfe, tem pronta para publicação uma investigação sobre a influência da língua inglesa no crioulo.
Evidencia uma postura atlética - ou não tivesse sido desportista de ténis, cricket e golfe - e diz-me que cultiva o anonimato e que as pernas lhe emperram o andar, quando lhe afloro a homenagem que muitos dos seus antigos alunos lhe estão a preparar - dia 29, a partir das 12h30, no Restaurante Caravela, em Algés. Ainda assim, o professor, já mimado por idênticos reconhecimentos em Paris, Estados Unidos e Holanda, diz que não irá fazer desfeita àqueles para quem sempre viveu.
"Foram tantos e tão bons...Eu leccionava Inglês e Geografia no liceu do Mindelo, que começou por chamar-se Infante D. Henrique, fundado em 1917, e que renasceu Gil Eanes depois de uma revolta da população contra o seu encerramento". Conta que era através da Geografia que "podia também construir a cabo-verdianidade, inspirando os alunos para a causa independentista".
De brilho nos olhos, Antero de Barros indica-me uma extensa fila de nomes do que chama a "geração de ouro" que estudou naquele liceu: Aristides Pereira , Amílcar Cabral, Pedro Pires, Abílio Duarte, Manuel Faustino, Carlos Reis, Osvaldo Osório, Mesquitela Lima, Onésimo Silveira, Amaro da Luz, Antonio St Aubyn, entre muitos outros que, diz "formaram a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes", em Lisboa, hoje, mais abrangente - Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde.
"Muitos desses estudantes estiveram na luta na Guiné-Bissau, na clandestinidade e ainda hoje estão em cargos e funções de destaque", facto que, confessa, o torna feliz, sem contudo referir que tanto no período de transição como na actualidade "há oportunistas na governação".
Foi vice-reitor (mais tarde reitor) daquele liceu, em 1957/8, ao lado do seu "melhor amigo e ídolo", o reitor Baltazar Lopes. Sobre este "vulto grande", um nome omnipresente em toda a sua vida, considera que foi "maltratado e recebeu ofensas nos primeiros tempos da independência. Por isso, viveu frustrado e amargurado", disse com convicção: "É um dos três pilares da História de Cabo Verde ao lado de Amílcar Cabral e Eugénio Tavares", este poeta da Brava, que nem todos sabem que foi também "um grande político".
Sentado num sofá de um apartamento de familiares, em Póvoa de Santa Iria, a caminho de Vila Franca, onde se encontra desde há oito meses para tratamento médico, Antero Barros mostra-me o seu livro de curso de 1952/56, onde poemas de Gabriel Mariano e Dulce Almada, enaltecem a sua persistência. Caricaturado na página ao lado com o pé sobre os seus livros de Filologia Românica e de Ciências Pedagógicas, tem o cabelo bem penteado para trás, apoia-se num taco de golfe e tem na mão direita uma raquete de ténis - já aí evidenciava a mesma altivez que ainda conserva.
Antero de Barros é então um jovem de 29 anos, já com quatro dos oito filhos de hoje, que vivia de explicações para pagar a renda do quarto em S. Bento e a alimentação, que descobrira mais barata, numa tasquinha no Largo Conde Barão. Era o único negro entre três rapazes e 58 raparigas que integraram aquele curso.
Revelando o que chamamos de "memória de elefante" e sem perder pitada do que o canal "Eurosport" ia apresentando, enquanto conversamos - um hábito diário, juntamente com o canal da BBC para se actualizar no conteúdo informativo e também no inglês, a língua que sempre leccionou - Antero Barros nota-me que o desporto foi sempre a sua paixão, "uma coisa de casa." O seu pai, "Nhô Fula", foi um lendário caçador de tubarões e jamantas, nos mares de Cabo Verde.
Da sua atracção pelo golfe e o cricket, desportos ainda hoje tidos como elitistas, mas que em S. Vicente, onde nasceu, eram populares, diz, pela influência inglesa.
A propósito alerta para o "crime que vão fazer", em pleno século XXI, de destruirem o Clube de Golfe em S. Vicente de que foi fundador, por causa da actual febre imobiliária. Da sua indignação, já escreveu para vários jornais, para esclarecer a "aberração que isso constituirá".
É presidente honorário do Comité Olímpico de Cabo Verde que liderou de 1989 a 2006. Presidente da Federação cabo-verdiana de futebol e membro do Comité Olímpico Internacional. Foi campeão de golfe em Cabo Verde e Angola, território onde estava quando se deu a independência e onde permaneceu durante algum tempo. Aqui fez parte da comissão de nacionalização da educação e presenciou a experiência dolorosa da ocupação dos colégios particulares onde também leccionou, nomeadamente o da "Cova da Beira" e "S. José de Cluny".
De Portugal que considera a sua segunda pátria, onde cursou na Universidade de Letras de Lisboa, recorda os seus "grandes professores" na década de sessenta: Lindley Sintra, Maria de Lourdes Belchior, Prado Coelho, Celso Cunha, Delfim Santos. Aqui fez parte da equipa de golfe de Portugal, foi sócio e jogador do Lisbon Sport Club e jogou com o Conde de Barcelona, D. Juan Carlos, e outras figuras da época. Antes da independência de Cabo Verde era Director dos Serviços de Educação e depois foi professor na Praia ao longo de 20 anos.
Considera que Cabo Verde "está num estádio mais próximo da Europa do que de África" e lamenta que o ensino do português tenha vindo a piorar - "encontro muitos erros ortográficos em alunos de anos avançados", disse, entristecendo-se também por opções "caricatas" em detrimento de altos valores e exemplificou entre muitos outros que diz conhecer: "Veja o contrasenso e ignorância de alguns que considero simples oportunistas. Há um liceu na achada de S. Filipe a quem chamam "Nha Manito", nominho de Constantino Semedo, um contínuo (guarda). O que terá feito ele de tão extraordinário? O que sabem os seus alunos do nome do seu liceu ? O que sabemos nós sobre o que fez este homem Constantino? Com tantos nomes que temos importantes na literatura, na política, na música....chega a ser indecente".
Sobre a oficialização do crioulo enquanto língua cabo-verdiana, Antero Barros, diz que é possível que tal facto tenha vantagens, sobretudo de ordem política e porque toda a gente fala o crioulo, mas observa que "uma língua não se faz da noite para o dia". Depois, prossegue, "vi um livro de Manuel Veiga sobre o Crioulo em 40 lições, e reparei que há um recurso ao português para fazer as explicações", facto que o leva a acreditar que existem muitas dificuldades nas matérias que são complementares.
Antero Barros é esquivo quanto ao foro político, embora seja da UCID, referindo que tal área nunca foi o seu forte. Sobre o encontro com Amílcar Cabral, em Nova Iorque, em 1962, quando estava então ao serviço da comissão de educação em representação do governo português, diz que depois desse encontro no bairro italiano, acompanhado de Aguinaldo Veiga, passou a ser vigiado. Cabral ter-lhe-á dito, perante a impossibilidade de Antero lutar na clandestinidade, que "os que ficam são as trancas da porta", são necessários também à Nação.
Socorrendo-se da doutrina de um professor universitário, Antero Barros considera-se "um professor que é" e "não um professor que está" acentuado que ele "é" porque o ensino foi sempre a sua paixão e a sua vida.
A sua vida, adverte, sorrindo, "dava muitos livros". E pelos livros continua à procura de dois especiais que lhe terão sido roubados entre quase um milhão de outros, há mais de 30 anos, em S. Vicente e sobre os quais chegou a prometer alvíssaras em anúncios de jornais: "As Técnicas e o Valor da Reconstrução da Filologia Comparativa", do professor Frederico Laranjo, e "Fundamentação Existencial da Pedagogia", do professor Delfim Santos. Fazem-lhe falta.
Por agora, continua lendo a vida do seu futebolista preferido, Pélé, em inglês.
[ A Semana on line 19-07-07 ]
Obrigada Paizinho
Pelas mil e uma maneiras como deste o teu amor, a tua sabedoria, a tua força. Obrigada por estares sempre pronto a tudo dar para nos ajudares.
Enfim, obrigada, por me teres dado a vida, transformando-me no ser humano que sou.
Todo o amor da filha
Maria Fernanda
Para um homem que inspirou, e continua a inspirar, todas as pessoas que tiveram a oportunidade de estar em contacto com ele de modo mais, ou menos, duradouro, a nível pessoal e profissional, o meu Avô:
"Os homens percorrem o caminho que vai do nascimento até à morte, umas vezes felizes, outras infelizes; umas vezes generosos, outras gananciosos e mesquinhos; por vezes heróicos, outras cobardes e servis. Quando se observa este cortejo como um todo, há alguns homens dignos de admiração que sobressaem.
Alguns foram inspirados pelo amor da humanidade, outros ajudaram-nos com a sua superioridade intelectual a compreender o mundo em que vivemos, outros ainda, mercê de uma excepcional sensibilidade, criaram beleza. Tais homens fizeram algo de positivamente bom [...]. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance para transformar a vida humana em alguma coisa mais ..."(B. Russell, 1950: 78-79).
A neta e admiradora,
Marta
As I have learned more about your life and achievements, you have become an ever increasing inspiration. As I sit in my own classroom, I can only hope that I have a fraction of the life-changing impact on my charges that you did on yours. I'm proud to be your granddaughter.
Love,
Patricia
Ao olhar para trás, recordo-me do inteligente e gentil professor de geografia que tantos conhecimentos me transmitiu. Mas acima de tudo lembro-me do professor amigo firme como um baluarte sólido e inexpugnável. Obrigada, obrigada para sempre.
Anilda Márcia de Oliveira Rodrigues
Felicito a iniciativa dos antigos alunos do Liceu Gil Eanes, residentes em Portugal, em homenagear o desportista e professor Antero Barros. Assim em todos os lugares da nossa emigraçao ele continua a ser homenageado, depois de Paris e Providence (USA). Mas, para mim falta agora uma grande homenagem em São Vicente, dos antigos alunos residentes em Cabo Verde o que permitiria um grande encontro de gileanistas dispersos pela Terra Longe.
Não faltam pessoas em Cabo Verde com a capacidade de organizar este encontro. Seria uma grande oportunidade de lançar as bases da Fundaçao Liceu Gil Eanes. Lá vivem, em especial em São Vicente, antigos alunos como Amiro Faria, Rolando Martins, Daniel Menses Cardoso, Isaura Gomes, Jorge Brito, Francisco Mascarenhas, Moacyr Rodrigues, Onésimo Silveira, que já provaram a capacidade de criar coisas positivas para Cabo Verde. Sejam meus amigos capazes de fazer mexer a sociedade civil Mindelense, dando a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!
Luiz Silva
Não convivi, de perto, com o Sr. Dr. Antero de Barros, porque não fui sua aluna. Contudo, sentia pela sua pessoa um grande fascínio, não só pela actividade de mergulhador que praticava - o que, na altura, era um feito - mas também pelo seu corpo esbelto, cuja recordação guardei para sempre.
Votos de uma longa vida e com muita admiração
de Maria de Fátima Chantre
Texto de apreço ao doutor Antero de Barros
Todos trazemos na memória uma inscrição indelével sobre uma pessoa, um acontecimento ou uma experiência de vida. Ao passar em revista o meu percurso como aluno do antigo Liceu Gil Eanes, em consciência e sem desprimor para outros notáveis e dignos professores que passaram por aquele estabelecimento, reconheço que o doutor Antero de Barros foi quem mais me marcou, quer pelas suas altas qualidades pedagógicas e saber científico, quer pelo sentido de responsabilidade, vontade de aprender e apego ao estudo que conseguia inculcar no espírito dos seus alunos.
Tendo sido meu professor de geografia, parece-me oportuno respigar, em jeito de síntese, uma passagem do que escrevi a seu respeito num artigo publicado há mais de um ano no jornal on-line Liberal: "No caso particular da geografia, rara era a aula em que os mecanismos de raciocínio não eram estimulados e elevados a um alto expoente, obrigando o aluno a compreender e a realizar factores tão diferentes como o clima, a economia, a demografia e a organização soial e política. Mesmo ao nível das exigências normais do ensino secundário, todo o aluno que passou pelas mãos de Antero de Barros deve ter atingido um patamar de amadurecimento intelectual em que sentiu a importância da contextualização do que aprendia e a transversalidade dos conteúdos dentro da mesma disciplina".
Além de grande pedagogo, cultor de acertadas metodologias de ensino e excelente formador de homens, o doutor Antero de Barros é um cidadão exemplar conduta cívica e moral, que faz jus à cumeada mais alta da estima, consideração e apreço dos seus concidadãos. Bem-haja por tudo, doutor.
Adriano Miranda Lima
(aluno do Liceu Gil Eanes de 1956/57 a 1962/63)
Ex.mo Senhor Dr. Antero de Barros
Sou, Sérgia e quero expressar a minha admiração e amizade que sempre tive por si.
Sempre o admirei pela sua sabedoria, inteligência, elegância pela maneira como se dirigia aos seu alunos.
Será com grande alegria e prazer que terei em revê-lo a 29 de Julho de 2007.
Cordealmente desejo-lhe muita saúde e felicidades.
Sérgia Fonseca
Preito de homenagem ao Dr. Antero de Barros
Antero de Barros ocupou um lugar muito especial no imaginário dos meus anos de meninice.
A sua figura imponente e majestática era para os da minha geração, um exemplo de desportista e de vencedor. Vir a tê-lo como professor foi um sonho tornado realidade.
Foi pois com a maior alegria que vi o seu nome integrar o elenco dos docentes do meu 3º ano do Liceu (o Liceu Gil Eanes na cidade do Mindelo), como professor de Inglês. Foi passar a conviver com um herói no dia-a-dia.
A enorme expectativa que tinha em me iniciar na língua de Shakespeare, aumentou exponencialmente com Antero de Barros como meu timoneiro na aventura de descobrir os segredos da língua, que qualquer menino mindelense sonhava poder um dia dominar.
Como eu, muitos ficaram indelévelmente marcados pelo exemplo dessa figura mítica de desportista ímpar e de mestre.
Bem-haja Dr. Antero de Barros por aquilo que me soube transmitir.
Um abraço do sempre discípulo.
António Semedo
Lisboa, Julho de 2007
Meu muito estimado professor e amigo Senhor Dr. Antero de Barros
O que me fez aderir, desde logo, a esta homenagem em sua honra, foi justamente, a grande amizade, a admiração e respeito que tenho por si.
Homem grande da nossa terra, no tamanho e na competência, não deixa seguramente nenhum aluno indiferente.
Muito obrigada Dr. Antero, por ter sido meu professor, meu amigo e amigo da minha família.
Sincerely
Auzenda Lopo (Zinha)
Queluz, Julho de 2007
Os meus encontros com o Dr. Antero Barros
O Dr. Antero Barros foi meu professor de Geografia e conseguiu entusiasmar-me com as suas aulas a tal ponto que eu, que detestava cadeiras em que se tinha de decorar as matérias, me apliquei e no exame final (5º ano) tirei a melhor nota desse ano.
Voltei a encontrar-me com ele quando já estava a estudar em Coimbra e fui passar umas férias a S. Vicente. Ele era então Reitor do Liceu e recebeu-me amavelmente no seu gabinete. Já não me recordo qual foi o assunto que me levou a procurá-lo. Talvez apenas cumprimentá-lo.
Vim encontrá-lo mais tarde na Casa de Cabo Verde, de que foi fundador e Tesoureiro da primeira Direcção. Como também pertencia aos Corpos Sociais tive o previlégio de voltar a contactar com ele.
Quando foi para Angola, tanto quanto me lembro, afastado por razões políticas pelo regime vigente, ficou como Delegado da Casa de Cabo Verde nessa antiga colónia e continuou a prestar um inestimável apoio a essa que foi a primeira associação cabo-verdiana em Portugal.
A. Rui Machado
Depois de ver há dias uma reportagem sobre os nómadas das estepes da Ásia, o meu pensamento voou até ao Liceu Gil Eanes, tinha eu 14 anos.
Numa aula de Geografia escutava encantada o querido Professor Barros a falar sobre a vida e costumes dos nómadas e sedentários da Ásia. Não só esta, mas todas as aulas do Professor Barros me deixavam entusiasmada, com vontade de saber mais e mais, por isso, permita-me que diga, bem-haja, muito e muito bem-haja por ter despertado em mim o gosto pela Geografia.
Maria Teresa Miranda Alfama
Moscavide, Julho de 2007
Homenagem ao Dr. Antero de Barros
Estava no 6º Ano da alínea G, no Liceu Gil Eanes, quando tive o privilégio de ter o Dr. Antero como professor de Geografia. Foram dois anos de formação, espantosa descoberta de pistas de vida que lançaram as sementes para a criação do Grupo do Terceiro Ciclo, embrião da primeira célula do PAIGC.
É a si que devo o facto de ter iniciado o conhecimento de um pouco do mundo de então.
No futebol, a equipa do Liceu; na Selecção, a viagem a Dakar, em 1958, no velho Neptuno; a viagem à Praia, no Senhor das Areias aquando do centenário da cidade; no velho avião da Guiné, as viagens a Dakar e a Bissau; no machimbombo do Lulula, a viagem a Zinguichor, na Gâmbia... Depois, em Luanda, retomámos a nossa convivência.
Até hoje, foram muitos os anos de desencontros, mas em nós sempre ficou a imagem de um grande Amigo, Mestre proficiente e Homem exemplar.
Um abraço dos amigos Marinela e Chico St. Aubyn
Dedicatória
Na Primavera a partilhar
Dr. Barros o conhecimento
Com a sebenta a ensinar
Os pupilos do Gil Eanes
Terminada a orfandade
Caminharam pela vida fora
Levando consigo a liberdade
E os ensinamentos do Antero
No Inverno desta vida
Vem os pupilos homenagear
Com um abraço desmedida
Antero Barros do coração.
Divo Monteiro
Lisboa, Julho de 2007
Sr. Professor
De entre tantos alunos que passaram pelas suas mãos, é natural que não se lembre de mim, no entanto alguns factos que aconteceram durante as suas aulas (História, Matemática, inglês, etc.), devem-lhe ter ficado gravados ma sua priveligiada memória...
Eu explico : numa aula de História no célebre 3º ano B do Liceu Gil Eanes nos idos anos 50, o Professor perguntou se algum aluno sabia o nome do célebre pintor da Renascença que pintou a Capela Sistina. Como ninguém se prenunciou o signatário, do alto da sua "sapiência" respondeu de imediato : Miguel Arcanjo!!!
Resposta pronta do Sr. Professor : ele nem sequer chegou a Anjo quanto mais Arcanjo!
Com um forte abraço do discípulo que muito o admira.
Febo Moniz Barbosa Peixoto
Ao Sr. Dr. Antero de Barros
Grande homem...
Grande físicamente - Não era impunemente conhecido por "Anterona".
Grande desportista e praticante de Golfe - (No príncipio da década de 60, seleccionado por Portugal, ganhou um troféu - melhor Driver).
Grande professor - (Fui seu aluno em São Vicente - Gil Eanes 60/61 e 61/62)
Grande na plenitude da palavra...
Grande, vai o meu abraço
Bem-haja Sr. Doutor
Jorge F. Monteiro Júnior
Ao Senhor Dr. Antero de Barros
Tanto quanto ainda me permite a memória, recordo-me com enorme saudade, do meu 3º ano, turma B do ano lectivo de 1946/47 e da grande curiosidade e expectativa que reinava entre os colegas (o Zézinho Pinto, o Mano de Pedro Cláudio, o Dada Pinto, o Dolfim, o Álvaro Cohen, o Bandeirinha, o João Antero Araújo, os Carvalhais, enfim...) de saber quem seriam os professores que nos iriam iniciar nas disciplinas novas do 3º Ciclo: Inglês, Geografia, Ciências Naturais, Físico-Química... E na disciplina de Inglês, aliás de Geografia: o Sr. Antero de Barros.
Muitos de nós já ouvíramos falar do Sr. Antero como reputado professor primário e setimanista, grande explicador do 1º ao 7º anos do Liceu, de todas as disciplinas, da Matemática ao Latim! Além de afamado golfista e jogador de Cricket.
Dr. Antero, foi um enorme privilégio nosso tê-lo como professor de Geografia pelo muito que nos ensinou, da maneira que prendia a atenção dos alunos, que tanto o respeitavam e o admiravam.
Estou certo de que em cada seu antigo aluno tem um amigo e um admirador!
Bem-haja, Dr. Antero!
Sou seu aluno,
Oswaldo Soares
Lisboa, Julho de 2007
Caros amigos
Embora uns anos mais novo que o Antero Barros, fomos contemporâneos na frequência do Liceu Gil Eanes, estando ele três ou quatro anos à frente de mim. Não foi assim meu professor, nem houve depois, ao longo das nossas vidas, qualquer ocasião de contacto directo entre nós.
É certo que me lembro de ter tido informações meritórias dele, no campo do desportivo, através de patrícios e de orgãos da comunicação social, o que me deu satisfação como é óbvio.
Não me sinto assim capaz de ser fonte de nenhum testemunho específico de agradecimento, mas creiam que me associo com muito gosto à cerimónia de homenagem que vai ser prestada a um conterrâneo que se distinguiu em dois campos que muito admiro e aprecio: a instrução e o desporto.
Com as minhas sinceras saudações caboverdianas e "gileanistas", sou
Luís Morazzo
Ao Professor Dr. Antero Barros
Um muito obrigado por aquilo que me ensinou.
Foi meu professor de inglês, no 3º ano, turma A, ao lado da "Sala de Professores", no nosso antigo "Liceu Gil Eanes". Tive como colegas, os amigos Augusto Costa, Dario Fernandes, Adriano Lima e muitos outros...
Aquela "transcrição fonética" é que me dava cabo da cabeça. Contudo, hoje, reconheço que valeu a pena, não tenho dificuldades em "soletrar correctamente" uma palavra inglesa (Note-se, fui um aluno mais inclinado para as "ciências" do que para as "letras"). Repito, muito obrigado. Por tudo, fica aqui expresso a minha amizade, admiração e apreço.
Um grande abraço, com votos de muita saúde e muitos anos de vidam na companhia dos seus familiares, amigos e antigos alunos.
Com toda a consideração.
José Alves Brito
Ao meu Compadre Antero
A quem muito estimo e admiro desejo as maiores Felicidades e o desejo que todos os Ensinamentos que tem dado ao longo da sua vida, seja um livro aberto às gerações futuras.
Julho de 2007
Luís e filhas
Antero Barros was my geography teacher at the Liceu Domings Ramos in the mid-eighties. After finishing my high school studies in 1986 I emigrated to the United States where I pursued and acquired advanced degrees in a couple different field of studies. Up to this day I feel that Antero Barros is the best teacher that I ever had. Dr. Barros was not just a geography teacher but he also taught his students about life in general. He made sure that you understood what is coming to you in the years ahead. I remember he would ask us general questions that at the time I thought " what this question has to do with geography?" Many years later I came to understand the underlining meaning of those questions. Professor Antero Barros made sure that his students were able to think critically, and in my opinion that the best gift a teacher can give to any student.
Dieguito
A Oportuníssima e bela ideia de confraternizar amigavelmente com o Professor Dr. Antero de Barros tem a sua contrapartida na longa distância de ter sido um grande professor e amigo de todos nós, que ensinava com muita clareza e competência - facto que nos ficou registado na alma para todo o sempre e na saudosa lembrança das paredes no nosso Liceu de Cabo Verde.
Maturino dos Reis Cohen
Dando resposta ao que me foi solicitado não poderia esquecer a minha pequena contribuição para dizer que me regozijo fazer parte da lista dos colegas do antigo Liceu Gil Eanes que se associaram nesta homenagem ao nosso professor Dr. Antero Barros.
Presto também aqui a minha homenagem ao nosso professor que, reconhecidamente, contribuiu para o crescimento e desenvolvimento educacional da juventude cabo-verdiana nos seus mais variados desígnios.
Ao professor um abraço e uma vida longa com muita saúde.
Do seu antigo aluno que subscreve com muita consideração e estima.
Rutílio Afonso Lopes
Penso que eu seja dos mais antigos alunos deste nosso muito ilustre "self-made" man que nos honra a todos pela sua dignidade, probidade e outras excelsas qualidades, que deverão nortear a conduta das novas gerações de patrícios.
Provavelmente terei oportunidade de manifestar o meu orgulho a este ilustre mestre, que tanto marcou a minha geração.
Com um grande abraço do
José Cohen
Deixo aqui expresso ao insigne Dr. Antero João de Barros a minha admiração, respeito e carinho, a alguém que foi mais que professor, mas também de alguma forma faz parte da minha família.
Um grande abraço, Professor
Celeste Ferreira
As façanhas dos grandes homens, que hoje são conhecidos como tal, são narradas em jornais e revistas e duram a circunstância de uma notícia. Os feitos do Dr. Antero de Barros estão diluídos no quotidiano das salas de aulas durante décadas e duram como lição de vida nos seus alunos e nos respectivos percursos pessoais e profissionais.
Pelo muito que soube ser em prol de outros, pela humanidade que ainda hoje irradia numa vida intensa e plena, fica um sentido e sincero obrigado daqueles que tiveram a inesquecida honra de ser seus alunos e discípulos. Para todo o sempre, obrigado Dr. Antero de Barros.
Eduardo Matos Vera-Cruz Pinto
Embora não tenha tido oportunidade de contactar com frequência o Dr. Antero João de Barros, a sua figura e maneiras de ser e estar, permanecem na minha memória, com uma dimensão que não esquece, própria e muito próxima dos grandes vultos cabo-verdianos, que, naturalmente, se impuseram e impõem à consideração, respeito e estima geral, pelas suas reais qualidades humanas, profissionais, dedicação empenhada, civismo e desportivismos transparentes.
Formado por excelência e acompanhado por mestres que tive o previlégio de conviver e ser amigo, o Dr. Antero de Barros foi e ainda é, concerteza, pela sua vivência um formador por excelência.
Sinto-me feliz e satisfeito por ter sido chamado e poder, com verdadeira sinceridade, expressar o que sinto e penso, permitindo-me assim ser incluído nos tantos amigos que estarão presentes no próximo dia 29.
Um grande abraço do
Torres Silva
Quando conseguida, a importância da presença paternal é demasiado relevante para ser ignorada!
Todavia, na essência do ser não pode ser ignorado o que advém da influência geneticamente herdada!
Mesmo sem que as circunstâncias tenham permitido que o legado inato pudesse ter sido valorizado pelo convívio com a sapiência, grandiosidade humanística e incontornável relevância socio-política de uma personalidade ímpar, sinto-me profundamente gratificado com as sementes de alma recebidas e desmesuradamente orgulhoso com tão ilustre ascendência.
Bem haja pai!
Eduardo
Na minha curta passagem por Cabo Verde, em 2004, fiz questão absoluta de fazer uma visita ao meu mui estimado Professor, Senhor Dr. Antero Barros, para lhe dizer pessoalmente, um "obrigada" do fundo do coraçao, pelo que aprendi nas suas aulas de Ingles e Geografia, no Liceu Gil Eanes. Essas duas matérias foram as que ficaram mais gravadas na minha memória com o passar dos anos, e são as em que procurei desenvolver maior conhecimento, devido as bases fortes que me foram transmitidas por esse grande Mestre que foi o Dr.Antero de Barros.
As lições de fonética que na altura não eram muito apreciadas, mas que ele exigia que soubessemos, tem sido de uma ajuda incálculavel para mim no aprendizado do Inglês . Soletrar nunca foi problema, mesmo sem saber o significado das palavras, graças à fonética aprendida há tantos anos, nas classes desse grande mestre. Agora, como professora de Inglês, em cada aula que ensino procuro repetir o que aprendi com ele.
Foi um grande privilégio ter esse grande CaboVerdeano como professor, e a imagem dele, a sua sabedoria, e o interesse que despertou nos seus alunos, jamais serão esquecidos.
Bem Haja Dr. Antero, e um Grande Thank You, aqui da California
Judith Wahnon
Senhor Dr. Antero João de Barros
Meus Caros amigos
A Direcção da Associação incumbiu-me de dizer algumas palavras neste acto de justa homenagem, de há muito prometida, e, agora, concretizada, ao Dr. Antero Barros.
Sendo esta homenagem prestada por uma Associação que reúne ex estudantes dos liceus de Cabo Verde, outros haveriam, aqui, mais legitimados para destinatários do convite. É que, de entre todos os presentes eu serei dos poucos, senão o único, que não teve o privilégio de ser seu aluno em nenhum dos dois liceus de Cabo Verde onde o Dr. Antero Barros leccionou.
Mas, serei, porventura, o único ou, eventualmente, dos poucos aqui presentes, que teve todo o seu percurso escolar acompanhado e, mais do que isso, influenciado, pelo magistério do Dr. Barros, a começar pela minha preparação para o exame de admissão ao liceu, passando pelo acompanhamento, como meu explicador, durante os primeiros anos do liceu e, mais tarde, pela inspiração, pelo incentivo e pelo inestimável e decisivo interesse que colocou na minha vinda para a Universidade.
E, porque não quero figurar naquele extenso rol de cabo-verdianos que o nosso saudoso Dr. Baltazar qualificava, e porventura, com razão, de "desorelhados", aqui, publicamente, lhe expresso, Dr. Antero Barros, toda a minha estima, todo o meu apreço, toda a minha admiração e, naturalmente, a minha ilimitada gratidão.
Por tudo isso, sr. Presidente da Direcção da Associação, Dr. Marcelo Évora, compreenderá que eu diga que serei eu a ter razões para lhe agradecer o convite para, em palavras que terão de ser breves, significar, nesta ocasião, ao Dr. Antero Barros, a estima, o apreço e a admiração de todos quantos aqui vieram a este almoço em sua homenagem.
A presença de cada um de nós neste almoço é já significativo do nosso apreço pelo legado do saber, de humanismo nas relações, de rigor e clareza no pensamento e na expressão das ideias, de justiça nas apreciações, legado esse que nos deixou, constituído de valores que foram moldando os nossos trajectos pessoais, académicos ou profissionais.
Esta homenagem é o momento para expressarmos ao homenageado todas essas razões do nosso apreço, da nossa estima, do nosso respeito e da nossa admiração. Mas, deve ser, também, um momento de exaltação pública do percurso do homenageado e que faz ou deveria fazer dele credor do reconhecimento, do respeito e, quiçá, da admiração da sua comunidade.
É isso que eu quero aqui fazer hoje, socorrendo-me, para tanto, das memórias de uma vivência de mais de meio século com o Dr. Antero Barros, vivência essa que, mesmo quando quebrada, na sua expressão física, pela distância, continuou nas notícias um do outro, as quais, directa ou indirectamente, a longa amizade e estima nos impeliam a manter actualizadas.
E, nessas minhas memórias reluzem três dimensões da personalidade do Dr. Antero Barros as quais, penso amplamente consensualisadas pelos presentes, como aquelas que devem, aqui, ser relevadas de entre o vasto conjunto das qualificações de mérito do nosso homenageado.
Refiro-me à dimensão de Professor, à dimensão de Desportista e à dimensão de Homem de Bem.
Numa das suas crónicas, editada no jornal Público, o Professor Daniel Sampaio punha a seguinte frase na boca de uma das personagens: "Sempre desejei ser professor.
Quando era criança, inventava aulas a partir de um quadro preto que o meu padrinho me tinha oferecido no dia do meu aniversário; explicava os meus próprios trabalhos aos alunos imaginários, conversava com eles e até lhes ralhava"
Assim se ilustrava o nascimento de uma vocação que o percurso notável da personagem veio a confirmar e que, perante a admiração de todos, ele sentiu-se na necessidade de, modestamente, explicar com a frase "eu sempre desejei ser professor"
Numa entrevista que, recentemente o Dr. Antero Barros deu a uma jornalista, ele sumariza todo o seu percurso dizendo que considera que é professor e explica-se, dizendo: "porque o ensino foi sempre a minha paixão e a minha vida"
Esta é a conclusão que resultaria, para nós, sempre evidente da leitura do currículo académico deste nosso professor. Esse currículo está nas vossas mesas pelo que me dispenso da sua leitura.
Meus caros amigos:
Quando olhamos para o magistério do Dr. Antero Barros que, durante quase sessenta anos, se distribui por cursos de explicações - ainda finalista do liceu Gil Eanes - que continua pelo ensino primário em S. Vicente, no Fogo e em Santiago e se fixa no ensino liceal em S. Vicente, em Angola e, finalmente, em Santiago;
E, sobretudo, quando, em reconhecimento de todo o seu desempenho como nosso professor, nos juntamos aqui tantos, unidos no sentimento de apreço mas, também, de gratidão por termos beneficiado desse longo magistério e, para testemunharmos que ele foi feito de paixão de ensinar, de preocupação de transmitir conhecimentos de forma clara e rigorosa, de incentivar a imaginação e a criatividade, de compreensão para com as nossas insuficiências e de esforço para nos ajudar a superá-las, enfim da preocupação de nos ajudar a crescer como estudantes e como cidadãos;
Ouso dizer, em nome de todos vós, ao nosso homenageado:
Sr. Dr. Antero, temos de concordar consigo que ser professor é, em si, dar expressão a uma autêntica vocação, naquilo em que esse atributo tem de mais virtuoso.
E, porque dela nos consideramos beneficiários, queremos dizer-lhe BEM HAJA POR ESSA VOCAÇÃO QUE TÃO BONS FRUTOS PRODUZIU.
Outra dimensão da pessoa do Dr. Antero Barros que eu enunciei como digna de ser celebrada aqui, hoje, é a de desportista. Aliás, onde quer que se fale do Dr. Antero ele é sempre evocado nessas duas dimensões, de professor e de desportista. E, como desportista ele tem de ser referenciado como atleta ou praticante de eleição e, também como dirigente de méritos reconhecidos
.O nosso homenageado foi atleta de quase todas as modalidades desportivas que os ingleses levaram para São Vicente, e dali, para todo o Cabo Verde, como sejam o futebol, o ténis, o cricket e o golfe. E, nesta última modalidade ele atingiu, mesmo em Cabo Verde, um nível de excelência tal que a posição de nº 1 se discutia, ao tempo, entre ele e o irmão Eduardo.
Em qualquer caso, o seu nome se inscreve e vai inscrever-se, para sempre, entre os maiores golfistas de sempre do nosso País.
A dimensão dele como golfista de excelência veio, igualmente, a ser reconhecida aqui em Portugal, onde se impôs, logo após a sua chegada e ingresso num dos clubes, o Lisbon Sports Club, como fazendo parte da elite dos jogadores de golfe não só do clube como também de Portugal, de cuja equipa nacional chegou a fazer parte.
E, era tal o seu prestígio como golfista que, em momento de algum esmorecimento do entusiasmo pelo Golfe em S. Vicente, ele conseguiu que uma equipa de Portugal, de que fez também parte, se deslocasse a S. Vicente para disputa de uma competição com a equipa local, protagonizando, com essa iniciativa, um dos momentos altos de entusiasmo à volta do golfe em S.Vicente, com consequências altamente benéficas para o futuro da modalidade.
Angola foi outro dos seus destinos, onde, mais uma vez a excelência do seu jogo de golfe foi reconhecida e, de tal forma, que fez parte da equipa de Angola que veio jogar o campeonato de Portugal e, também, uma competição com Moçambique.
Uma das curiosidades da presença do Dr. Antero Barros nessas equipas, seja a do Lisbon Sports Club, seja a de Portugal, seja a de Angola é que ele era o único não branco em todas elas, e era cabo-verdiano.
Temos de convir que, mesmo naquela altura em que tudo era Portugal, de Minho a Timor, a presença do Dr. Barros nessas equipas, até pela singularidade de pigmentação, era uma situação honrosa para Cabo Verde.
Na dimensão de desportista do Dr. Antero Barros, cabe dizer algumas palavras sobre o seu percurso de dirigente desportivo.
Penso que não errarei se disser que são os dois atributos, o de mestre reconhecido e o de desportista de eleição que o qualificam, junto dos seus pares, ou das autoridades (quando foi o caso) para as posições de relevo na área do dirigismo desportivo.
Do mestre que ele era, trazia a competência, o rigor, o bom relacionamento, a tolerância, o sentido de pedagogia nas decisões. Do desportista de eleição ele trazia o conhecimento dos aspectos específicos e determinantes do sucesso em cada uma das modalidades, bem como a necessidade de disciplina, de sentido de equipa, de organização.
É, assim, que, nesse capítulo de dirigente, vamos encontrá-lo, por exemplo, como Capitão de equipas – de cricket, de golfe -, como Presidente de Clubes – Golfe de S. Vicente, de foi membro fundador, Golfe, Ténis e Cricket da Praia, Clube de Golfe de Luanda. Vamos encontrá-lo, ainda, como membro fundador e Presidente da Assembleia Geral da Académica do Mindelo, Presidente da Associação Desportiva de Barlavento, Vice Presidente da Direcção da Federação Portuguesa de Voleibol, etc.
Penso, no entanto, que, de entre todas as funções que ele desempenhou de dirigente desportivo, seja de realçar a função de Presidente do Comité Olímpico de Cabo Verde, lugar que ele desempenhou durante cerca de 17 anos e que ele entendeu por bem deixar o ano passado para dar lugar à renovação de quadros dirigentes da organização com vista aos desafios do futuro.
Aliás, é de sublinhar que ele participou na criação do Comité Olímpico de Cabo Verde, apoiando na definição da respectiva estrutura jurídica, a partir da sua experiência como membro do Comité Olímpico Português aquando da sua presença como Secretário Geral e Vice-Presidente da Federação Portuguesa de Voleibol.
Do seu desempenho à frente da instituição testemunha o trabalho de apoio ao desenvolvimento das modalidades desportivas em Cabo Verde, com presença, já honrosa, em várias competições, sendo que presenças mais significativas tem de ser, na sua opinião, a resultante de um trabalho de largo fôlego a partir das escolas, onde os poderes públicos têm o papel mais relevante, e também do empenho, competente e devidamente sustentado, das Associações das diversas modalidades.
Desse desempenho à frente do COCV , mormente na afirmação de uma presença digna e empenhada a favor de Cabo Verde junto do COI, testemunham, também, as condecorações com que tem sido agraciado pelo Comité Olímpico Internacional, as quais constam, aliás do descritivo do seu percurso de desportista que tendes à vossa frente.
Deixe que vos diga, ainda, que, no elenco das experiências associativas do nosso homenageado, o Dr. Antero Barros gostará, seguramente, de recordar que ele foi, comigo e mais uma meia dúzia de cabo-verdianos, um dos fundadores da Casa de Cabo Verde em Portugal, onde ocupou, por escolha própria, o lugar de Tesoureiro quando a função que queríamos que ele desempenhasse era a de Presidente da Direcção.
Meus caros amigos:
A jornalista que entrevistou o nosso homenageado, e que eu referi acima, ficou impressionada com a estatura física do Dr. Antero Barros e, de tal forma, que o qualificou, e bem, de um "homem Grande, literalmente".
Nós que sempre nos habituamos à estatura física desse homem de dois metros, queremos, sobretudo, celebrar, hoje, aqui, na pessoa do Dr. Antero Barros, a sua estatura de um grande HOMEM.
E a este grande HOMEM, permita-me, Sr. Presidente que enderece, de viva voz, neste final, as palavras de homenagem que inscreverei no livro de testemunhos que lhe irá ser entregue:
Sr. Antero, meu caro amigo:
Trago-lhe este meu recado e digo-o aqui porque, sendo meu, é também o recado de muitos dos presentes para si:
Obrigado por ter acreditado em mim
Quando era por demais difícil eu acreditar em mim mesmo.
Obrigado por dizer tantas vezes e assim me ter convencido
Que eu, realmente, conseguiria vencer
Obrigado por ter sido e continuar a ser meu amigo
Por confiar nas minhas capacidade
E me ter estimulado a ir em frente
Porque tinha direito a realizar os meus sonhos
Obrigado por ter posto tanta Sabedoria
Carinho e Imaginação
Na amizade que me dedicou
Obrigado por me ter proporcionado tantos momentos gratificantes e felizes
E por ter marcado o nosso convívio com tantas memórias estimulantes
Obrigado por ter sido para comigo
Tolerante onde era necessário
E rigoroso onde era útil que assim fosse
Obrigado por ter sido o Amigo presente
Em todos os momentos em que dessa amizade precisei.
Sr. Dr. Antero,
Quando se é portador de todas essas virtudes das quais, cada um de nós, seu ex-aluno, nos beneficiamos, num qualquer momento do nosso contacto consigo, de nada mais precisamos para lhe dizer, neste dia e neste acto, que queremos celebrar para sempre na sua pessoa, o grande Mestre, o grande Desportista e, como homem de bem, o nosso grande AMIGO.
Entidades
Caros associados
Minhas senhoras e meus senhores
Senhor Dr. Antero de Barros
Distingo dois momentos cruciais e determinantes na trajectória da humanidade:
- O primeiro foi quando ela entrou em rotura com a animalidade para entrar na sensibilidade. Como diria A. Schopenhauer passou do domínio da vontade, do prazer, da coisa em si kantiana para o das Ideias platónicas ou da representação;
- No segundo momento da representação em que dominam as Ideias passou para a produção e acumulação do conhecimento cujo instrumento principal é a razão alvo do desdém de Nietzsche. Produzido e acumulado o conhecimento, necessário se tornou fazer a sua distribuição social e a consequente distribuição do trabalho social, eis que despontou-se o Professor essa figura central, esse sujeito, da agência secundária de socialização que é a Escola.
Convertidos ou oblatos, na designação de Pierre Bourdieu, todos somos produtos da Escola. Nenhuma sociedade do passado e menos a mo- derna pode prescindir do Professor e da Escola, a eles devemos uma parte do que somos e seremos – são-nos estruturais ...
O senhor localiza-se nessa cadeia de socialização, de transmissão e absorção de conhecimentos, emergindo com duas propriedades ou dimensões fulcrais como:
Professor do ensino primário categoria determinante para todo o alfabetizado: intelectual, investigador, líder, operário especializado ...e do secundário. Razão por que estamos hoje aqui, mas:
Com foco na Grécia clássica, os gregos na sua sabedoria e fruto dos conhecimentos então acumulados incidiram a sua atenção e interesse sobre o corpo humano e a sua configuração estética, olhar sublimemente expresso nas artes plásticas, mas também sobre os meios de interferir no seu funcionamento para consecução do bem estar fisiológico ou da boa saúde.
– num e noutro domínio o senhor é um cultor dessas sábias propriedades gregas: as faculdades do conhecimento e do desporto têm sido uma constante e uma consonância na sua trajectória – não pretendo, é óbvio, insinuar que se trata duma divindade olímpica nem S. Vicente é dalgum modo uma réplica de Atenas, mas sei que apreendeu e reproduziu as virtualidades delas decorrentes tornando-se num exímio e multifacetado desportistas num espaço e tempo longínquos ao ponto de conhecimento e desporto aliados entre si, aplicados e transmitidos por si atraírem a atenção, o interesse e a admiração dos seus alunos para além da formação duma pléiade de fãs por diversas terras por onde passou e viveu, isto é, operacionalizou em S. Vicente, em Cabo Verde e noutros espaços, a máxima latina: mens sana in corpore sano (saúde do espírito em corpo são). Eis a razão ou as razões porque se constitui uma referência para eles e importaria que tenha sido e seja para toda a nação cabo-verdiana. E num tempo de obscuras candeias por que a juventude e a sociedade se conduz valham-nos os clássicos e os seus cultores.
Em suma:
Eis o fundamento porque a Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde com o apoio dessa instituição amiga e generosa que é a C. M. de Oeiras, para quem peço uma salva de palmas, com a entrega missionária dalguns dos seus amigos entendeu fazer-lhe esta justa e merecida homenagem.