ANEXO II
Nos anos 1950-60, milhares de portugueses emigraram para os países mais ricos da Europa Ocidental como a França e a Alemanha, em plena fase de reconstrução depois da devastadora Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Esse êxodo importante traduziu-se na metrópole por uma crise de mão-de-obra, nomeadamente no sector da construção civil. O Presidente do Concelho, Marcelo Caetano, virou-se então para o Império, nomeadamente a província de Cabo Verde, trazendo à Lisboa sobretudo trabalhadores naturais de Santiago.
Para facilitar a sua integração na metrópole, os Ministérios do Ultramar e das Corporações (previdência, emprego, etc.) criam, através de um despacho conjunto de Janeiro de 1973, o Centro de Apoio aos Trabalhadores do Ultramar (CATU), instrumento encarregado do acolhimento e integração nos sectores mais carenciados de mão-de-obra. Os trabalhadores residiam num centro de acolhimento na Junqueira, em Lisboa, onde se concentrava a maior parte do grupo. Era também tarefa do CATU, o internamento na Casa Pia, na Casa da Misericórdia ou na Casa dos Rapazes, das crianças cujos pais não tinham condições materiais para cuidar delas.
Com a independência das colónias portuguesas em África, entre 1974 e 1975, o CATU desaparece mas o apoio aos cabo-verdianos mantém-se, no âmbito do Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais (IARN). Trata-se de um organismo especialmente criado na metrópole em meados dos anos 70 para acolher os portugueses mas também cabo- verdianos que fugiam de Angola, onde os primeiros confrontos armados entre os três movimentos nacionalistas (MPLA, UNITA e FNLA) anunciavam o início de uma longa e trágica guerra civil.
Doravante, as questões ligadas à imigração, nomeadamente as questões relacionadas com a autorização de residência, de permanência ou o reagrupamento familiar são da responsabilidade do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Por seu turno, o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME), entidade criada durante a governação do Primeiro-ministro socialista António Guterres, procura contribuir para uma melhor integração dos imigrantes. Em 2004, o governo social-democrata criou o Centro de Apoio ao Imigrante, que funciona como uma loja do imigrante onde os estrangeiros podem resolver problemas diversos tais como a legalização, a saúde, a educação ou o apoio social. Estima-se hoje entre 50 a 100 mil, o número de cabo-verdianos radicados em Portugal, particularmente na Amadora, Almada, Barreiro, Oeiras, Algés, etc., cidades situadas na Grande Lisboa.
Como possuíam passaporte português, muitos cabo-verdianos aproveitaram a ida a Portugal para se deslocarem e instalarem-se noutros países da Europa Ocidental. Mas a maioria permaneceu no território português, a metrópole onde engrossou as fileiras da construção civil. As mulheres, chegadas mais tarde, sobretudo no quadro do reagrupamento familiar, vão trabalhar no sector da limpeza ou como empregadas domésticas.
A mão-de-obra cabo-verdiana foi sobretudo utilizada nas grandes obras em Lisboa como a construção da rede metropolitana de Lisboa (extensão entre as estações Sete Rios – Colégio Militar e Alvalade – Campo Grande) e os estaleiros navais da Lisnave. Na primeira metade dos anos 1970, cerca de 10.000 trabalhadores labutavam nos estaleiros navais da margem sul do Tejo. Mas a crise acabou por afectar o sector, levando à diminuição em 70% do efectivo. No final dos anos 1990, a Lisnave suspendeu as suas actividades e os poucos cabo-verdianos que ainda ali trabalhavam, mudaram para a Setnave, os estaleiros de Setúbal e até para a Cabnave, em São Vicente.
Os cabo-verdianos trabalharam igualmente no sul de Portugal, designadamente na edificação do parque industrial de Sines e na construção de hotéis no Algarve, e mais tarde, na construção de estradas e pontes, por todo o país, e das infra-estruturas da Exposição Universal de 1998 em Lisboa e de alguns estádios de futebol, palcos dos jogos do Euro 2004, o campeonato da Europa das nações. Também as minas da Panasqueira constaram dos sectores de actividades dos crioulos. Nos anos 1970, as minas de carvão pertencentes à Barelt & Tin Wolfram Portugal SARL, na Panasqueira, perto da Serra de Estrela, chegaram a empregar 500 cabo-verdianos, isto é, cerca de 50% do total dos mineiros. Tinham entre 18 e 45 anos e eram sobretudo de Santiago, Fogo e São Nicolau. Porém, em Outubro de 1976, graves incidentes opuseram esses trabalhadores aos seus colegas portugueses, provocando um morto e por conseguinte, a sua evacuação para uma base militar. A maioria regressou à Lisboa para trabalhar na construção civil enquanto outros atravessaram a fronteira espanhola para trabalhar nas minas de carvão de Leon.
Uma minoria, mercê a dupla nacionalidade, trabalha hoje na função pública, em sectores como a saúde e o ensino (Celeste Correia, deputada do Partido Socialista na Assembleia da República e dirigente associativa cabo- verdiana foi professora durante alguns anos). No que refere à saúde, em 2000, a Ordem Portuguesa dos Médicos tinha no seu seio 100 médicos de origem cabo-verdiana, num total de 2.007 médicos estrangeiros inscritos. Quanto às mulheres, o sector da limpeza continua a ser a principal alternativa profissional: muitas trabalham como empregadas domésticas pagas à hora mas há cada vez mais quem prefere as empresas de limpeza. Apesar de um modesto salário (cerca de 80 contos), este emprego garante- lhes uma segurança social e uma reforma. Algumas trabalham por conta própria, nos seus salões de cabeleireiras ou vendendo peixe nalgumas zonas como no Cais de Sodré.
O primeiro "bairro" cabo-verdiano de Lisboa situava-se na zona entre a Rua de São Bento, o Largo do Rato e a Rua do Poço dos Negros. Imigrantes e marinheiros de passagem misturavam-se naquela zona que os cabo-verdianos dividiam em duas zonas, Plurim d'Cima e Plurim d'Baxo. Havia bares e até pensões pertencentes a crioulos como Dona Maria, no 502, Rua de São Bento. Entre os famosos habitantes dessa rua destaca-se B.Leza. No começo do ano 2000 ainda se podia comer uma cachupa no bar de Nha Dedês, a escassos 200 metros da Assembleia da República, mas há cerca de 30 anos que o "bairro" deixou de ser cabo-verdiano.
Com o início da guerra civil em Angola, o governo português viu-se obrigado a construir habitações sociais na Grande Lisboa para acolher os retornados que chegavam aos milhares. Algumas famílias cabo-verdianas conseguiram um apartamento nessas cidades dormitórios como o Vale da Amoreira ou Benfica mas a maior parte preferiu construir uma barraca, criando verdadeiros guetos como a Pedreira dos Húngaros, em Algés, ou Marianas, ao pé da linha Cais de Sodré – Cascais. Ao todo, apareceram perto de 60 bairros degradados, sem quaisquer condições de higiene e de habitação e mal afamados. A média de habitantes oscilava entre os 2.000 e os 6.000 enquanto que dados oficiais de 1993 indicavam que 32 mil famílias viviam nessas condições.
Exceptuando o bairro da Cova da Moura, provavelmente o único cujas condições de habitação foram melhoradas com o tempo, os bairros degradados desapareceram quase todos. Em 1994, Cavaco Silva e Jorge Sampaio, na altura Primeiro-ministro e presidente da Câmara Municipal de Lisboa, respectivamente, assinaram o Programa de Erradicação das Barracas (PER), com a promessa de garantir a cada família uma casa até 2001. Tal não aconteceu, apesar dos esforços. O processo é moroso, alguns bairros continuam de pé, como o 6 de Maio, na Damaia, Amadora, mas a distribuição de apartamentos já começou. Depois de 12 anos nas Marianas, Olívia, Nha Diminga e Menininha, todas de Santiago, trocaram a sua barraca por um apartamento na zona em Cascais.
Na primeira metade dos anos 1990, viviam em Portugal cerca de 50 mil clandestinos, segundo João Miranda, membro da Associação cabo- verdiana de Lisboa. Face ao problema, o governo do Primeiro-ministro Cavaco Silva abriu um processo de legalização extraordinária de imigrantes, o primeiro na história do país. No quadro da Lei nº13/92, de 23 de Julho de 1992, milhares de cabo-verdianos regularizaram a sua situação. O processo foi conduzido entre Outubro de 1992 e Fevereiro de 1993, e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) contabilizaria cerca de 47 mil processos deferidos, ou seja perto de 70 mil pessoas (Público, 07/03/2002).
Em 1996, já sob a governação do Primeiro-ministro socialista António Guterres, Portugal voltou a adoptar esta medida excepcional, ao abrigo da Lei nº17/96, de 24 de Maio. Um total de 6.872 cabo-verdianos em todo o país, dos quais 6.580 em Lisboa, apresentaram-se às delegações do SEF com vista a sua regularização. Em Janeiro 2001, as autoridades de Lisboa lançaram uma terceira regularização extraordinária através do Decreto-lei nº 4/2001, de 10 de Janeiro. Cerca de 140 mil estrangeiros, dos quais 6.073 cabo-verdianos, obtiveram uma autorização de permanência, válida por um ano. Os principais beneficiários desse processo foram os cidadãos da Europa do Leste, chegados a Portugal na segunda metade dos anos 1990.
Com a chegada ao poder do Partido Social-Democrata e do Partido Popular nas eleições legislativas de 2002, a emigração para Portugal passou a depender de um relatório oficial anual elaborado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) sobre as necessidades de mão-de- obra. Apesar da sua vitória, a direita não extinguiu a figura do Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME), criada pelos socialistas para lidar com a questão da imigração no país. No entanto, uma nova Lei da Imigração entrou em vigor em meados de Março 2003. Considerada dura, a nova legislação condiciona a entrada de qualquer candidato à emigração à apresentação de um contrato de trabalho. No entanto, a lei defende o apoio aos imigrantes legalmente residentes em Portugal.
O regresso dos socialistas em 2005 traz uma única mexida de realce relacionada com a política de imigração, uma nova lei da nacionalidade promulgada em 2006 pelo presidente da República Cavaco Silva. O diploma passa a atribuir automaticamente a nacionalidade portuguesa aos cidadãos nascidos em Portugal, filhos de estrangeiros também já nascidos no país.
O mesmo sucede relativamente às crianças nascidas em Portugal, filhas de imigrantes que residam legalmente em território nacional há pelos menos cinco anos. A nova lei significa o reforço do ius soli, do local de nascimento, como critério de aquisição da nacionalidade, por contraponto ao ius sanguini (aquisição por filiação), que vigorava desde 1981.
Os primeiros habitantes da Cova da Moura dispunham de uma única torneira para o abastecimento de água potável. O sistema de esgotos também não existia. O açoriano Eduardo, sua esposa belga Oliva e alguns cabo-verdianos organizaram então uma reunião para reclamar das autoridades locais uma solução ao problema e com o tempo, essas reuniões desembocaram na criação duma associação, o Moinho da Juventude. Desde então, a melhoria das condições de vida e a promoção das populações, particularmente dos jovens, têm sido o cavalo de batalha dessa associação. O bairro de Cova da Moura e o Moinho da Juventude não são um caso isolado. Quase todos os bairros têm a sua associação cujas actividades versam a integração dos imigrantes, a melhoria das condições de vida e a formação dos jovens. A maior parte das suas actividades é financiada pelo Fundo Social Europeu, pelo Estado português, pelas câmaras municipais e por diversas entidades de cariz social. Existem também associações de âmbito nacional como a Morna, exclusivamente viradas para os jovens.
O movimento associativo no seio da comunidade cabo-verdiana nasceu nos anos 1970, com a criação da Casa de Cabo Verde. Na altura, o papel da referida casa consistia no acompanhamento e encaminhamento dos recém-chegados, a resolução dos seus problemas e a organização de sessões culturais. Rebaptizada Associação Cabo-verdiana de Lisboa (chamou-se também Associação de Cabo-verdianos e Guineenses), a organização é um dos principais interlocutores das autoridades portuguesas em matéria de integração e regularização da situação dos imigrantes.
A uma pergunta sobre as diferenças entre a primeira e segunda gerações de cabo-verdianos na diáspora, o antropólogo português Miguel Vale d'Almeida diz que ao contrário da segunda geração, os primeiros imigrantes não tinham nenhuma capacidade reivindicativa. «Perante situações de exclusão e marginalização, as gerações mais novas recorrem ao modelo de reivindicação que as primeiras não tinham (...) Muitas vezes, para afirmar a sua identidade, os cabo-verdianos da segunda geração têm apenas como recurso formas extremadas (...) Pelo contrário, a primeira geração limitou-se a afirmar a sua identidade através da prática cultural, música, dança, etc, o que corresponde às expectativas da sociedade de acolhimento» (A Semana, Maio 2002).
O antropólogo português participou, em Maio de 2002, no Congresso dos Quadros Cabo-verdianos da Diáspora, na Cidade da Praia, que debateu a questão da segunda geração. Um tema escolhido em consequência da situação complicada então vivida por uma parte dos jovens cabo-verdianos nos Estados Unidos e em Portugal, países de acolhimento da primeira e segunda maiores comunidades crioulas no estrangeiro.
As «formas extremadas» evocadas por Miguel Vale d'Almeida estão na origem da expulsão de jovens cabo-verdianos dos Estados Unidos para o arquipélago. Em Portugal, a imprensa relata com frequência a difícil relação com a polícia e os actos marginais levados a cabo por esses jovens que, há muito, deixaram de estudar. Resultado de um sistema educativo bastante criticado pelas associações e organizações próximas dos imigrantes que evocam sua severidade, boa parte acaba por abandonar a escola. Um estudo realizado no início dos anos 90 indicava que os alunos cabo-verdianos do ensino básico detinham o segundo maior índice de insucesso escolar, depois da comunidade cigana. O estudo referia ainda que pelo menos 30% desses alunos "dificilmente continuam os seus estudos para além do nono ano (escolaridade obrigatória)".
A procura de um emprego, a desagregação familiar, a gravidez e as limitações financeiras dos pais são algumas das causas desse fenómeno de abandono escolar. O sociólogo cabo-verdiano Nardi Sousa cita ainda a falta de perspectivas desses jovens, sua pobreza cultural, uma escola que não cumpre o seu papel, a inadequação das políticas públicas e a incapacidade de algumas associações. «Porém, apesar de viverem nos bairros, há muitos jovens que sabem o que querem: estudam e participam nas acções das associações», esclarece o sociólogo, que cita os casos de Ananias, do bairro da Reboleira e estudante em Antropologia, assim como de Belinha e Francisca, ambas da Cova da Moura, e que concluíram da melhor forma os seus estudos de Direito, com um diploma.
A formação profissional, com cursos variados como a carpintaria ou a informática, acaba por ser uma das principais respostas ao fenómeno do abandono escolar e uma componente obrigatória das actividades da maior parte das associações cabo-verdianas em Portugal. Para aqueles que continuam a frequentar a escola, algumas associações organizam sessões de acompanhamento chamadas ATL (ateliers de ocupação dos tempos livres). Segundo António Brito, então membro da AJPAS (Associação de Jovens Promotores da Amadora Saudável), resolver a questão da segunda geração abrange várias vertentes, desde a habitação à escola passando pelo emprego, e implica uma acção concertada das várias instituições como as associações, as câmaras e o Estado. «Também os jovens terão que dar o seu contributo, rompendo com a cultura do assistencialismo e apostando na auto-promoção e formação contínua», acrescenta Nardi Sousa.