“Era uma vez uma mãe que teve uma filha muito, muito bonita. Tão bonita que o sol, mal um dia a viu, logo se perdeu de paixão por ela. Ciumento, não deu mais luz nesse dia para que outros não a vissem e também não se apaixonassem pela linda menina. Fez-se um eclipse. A mãe, com medo de ficar sem a única filha que tinha, a única companheira que Deus lhe dera, resolveu escondê-la dos olhos do mundo.”
É raro observar uma população que se abandone à música com tanta espontânea naturalidade e paixão como a das Ilhas de Cabo Verde. Uma grande parte dos músicos, cantores e compositores são pescadores que, de regresso de uma cansativa jornada no mar, se dirigem para os locais de música para apresentar as suas últimas criações ou os clássicos do seu repertório, lendo muitas vezes os textos escritos com letra desajeitada em minúsculos papelinhos amarrotados. Na música e no canto atiram para trás das costas o cansaço do trabalho, a infelicidade duma vida feita de dificuldades, a tristeza pelos companheiros e familiares perdidos no mar. A dor, todavia, nunca é gritada.
Fonte: Mata-Sede
Na ilha Brava, o compositor Eugénio Tavares, admirador da poesia ultra-romântica e do fado já emergente, compunha as suas Mornas tocando guitarra portuguesa , segundo testemunhos plausíveis. Para além das melodias singelas, reinventa o crioulo poético de canção, com muita elegância. José Bernardo Alfama, publica em 1910 um livro de Canções Crioulas em Lisboa, contendo algumas mornas «bravenses».
Fonte: vasco-martins.com